09 de julho de 2018 | por Jerson Pita
Mbappé, influência digital, marcas e intolerância
Foto: Pilar Olivares/Reuters

Sabe aquela atuação em Copa do Mundo que você vai se lembrar daqui a muitos anos e contar para o seu filho ou para o seu neto? Então, o francês Kylian Mbappé entrou para esse hall com os dois gols e as arrancadas na vitória da França por 4 a 3 sobre a Argentina, pelas oitavas de final do Mundial da Rússia. Mbappé percorreu 64m do gramado em 38 km/h na arrancada que originou o pênalti e consequentemente o gol de Griezmann para a França. Acima dos 37,5km/h do jamaicano Usain Bolt quando estabeleceu o recorde mundial dos 100m, em 2009 no Campeonato Mundial de Atletismo de Berlim. Grande feito comparando as diferenças de preparação das modalidades esportivas.

Tão veloz quanto a atuação do Francês frente à Argentina, foi a reação do Mundo e a repercussão na internet. O presidente Francês Emmanuel Macron usou o Twitter para chamar a partida de “Magnífica”. Uma pesquisa do Ibope Conecta sobre o comportamento do internauta brasileiro revela que 95% dos internautas assistem TV e navegam na internet ao mesmo tempo. Seguindo a velocidade do jogador do Paris Saint Germain, o youtuber Júlio Cocielo, dono do 5º canal mais seguido do Brasil, usou a mesma rede social para compartilhar com os seus seguidores que Mbappé “conseguiria fazer arrastões top na praia”. Internautas criticaram este e outros comentários anteriores dele, apontando racismo e outros tipos de preconceito. Cocielo pediu desculpas e apagou mais de 50 mil posts no Twitter.

Com 16,8 milhões de seguidores no Youtube, Cocielo tem mais seguidores do que a população do Equador, que tem cerca de 16 milhões de habitantes. Em um ranking populacional, Cocielo ficaria em 66º numa lista com 257 países, a frente de Bélgica, Cuba, Grécia e Portugal. Tanta influência despertou tensão quanto ao receio de marcas patrocinadoras do Youtuber em terem suas marcas atreladas à imagem desgastada do influenciador digital. O Itaú Unibanco, por exemplo, exibiu até o dia 30 de junho um vídeo para a Copa no qual aparecia Cocielo. Depois da repercussão do caso, o banco informou que “o youtuber não faz mais parte de qualquer peça de comunicação” da campanha. O Submarino também diz que retirou uma campanha do ar após as notícias sobre o caso. A Coca-Cola, que fez ações com Cocielo em 2016, diz que não tem planos de manter futuras parcerias com o youtuber. A Adidas, que também trabalhou com Cocielo, informou que suspendeu a parceria.

O youtuber e publicitário Spartakus Santiago gravou um vídeo em resposta ao comentário racista de Júlio Cocielo postado no Twitter. Ele ressaltou que o comentário feito por Cocielo propaga um pensamento preconceituoso que assola a população negra no Brasil. Spartakus chamou a atenção para o prejuízo que pode ser causado a crianças e adolescentes, público-alvo dos vídeos de Cocielo, que costumam apoiar tudo o que os influenciadores falam. Na noite do último dia 04, Cocielo voltou a publico pedindo desculpas. Spartakus corroborou que piadas desse tipo não tem mais espaço na sociedade. “Considero isso uma vitória do movimento negro, em especial dos youtubers negros, que mostraram que nenhum tweet com comparações escrotas vai ser tolerado. 17 milhões de inscritos vão ter que, por um momento, parar de rir de tudo e entender que #RacismoNãoÉPiada”, disse.

Um exemplo que reflete a nova economia são as redes sociais como fonte de renda e inspiração. O caso de Cocielo vai na contramão e expõe quanto uma crise de imagem pode ter reflexos negativos a marcas. À medida que os perfis passaram a ter uma dinâmica de negócio, nem todo mundo conseguiu manter seu valor inicial. Originalidade, humanidade e respeito começaram a ficar cada vez mais raras na internet, e inevitavelmente, essa premissa acaba invadindo o mundo real. O resultado: não é saudável nem para quem consome o conteúdo, nem para quem o produz.

Cocielo disse que não tem assessoria, pediu desculpas e afirmou que o tuite foi mal interpretado. “A piada se referia a velocidade dele devido a um lance de jogo, nada além disso”, comentou. Mbappé, jogador mais caro da história do futebol francês, ouviu gritos de “Macaco” em um jogo contra a Rússia, em março desse ano. A ministra dos Esportes francesa, Laura Flessel-Colovic, escreveu no Twitter: “O racismo não tem lugar nos campos de futebol”. O fato é que Mbappé de apenas 19 anos, vai deixando o racismo e preconceito pra trás e segue em “passadas largas” para se consolidar como novo fenômeno mundial do futebol. Mais um que sai da periferia, enfrenta o racismo mostrando talento e brilha pelo mundo como um diamante da lama.

Origens

A palavra francesa “banlieue” significa subúrbio, periferia. Na maioria das vezes, concentra famílias de baixa renda. Séculos atrás, o termo significava “lugar proibido”: Era para lá que nobres enviavam criminosos e mendigos. De origem africana, Mbappé tem pai Camaronês e mãe Argeliana. Os dois escolheram o bairro de Bondy, periferia de Paris, para se refugiar na onda de imigração que chegou ao país após a independência das ex-colônias africanas nos anos 1960. No “lugar proibido” de Paris, nasceu Kylian Mbappé, que hoje vale cerca de 550 milhões de reais e tem propostas para assinar com o gigante, e maior campeão do mundo, Real Madrid da Espanha.

Os indicadores sociais de onde ele nasceu ficam à sombra da Cidade Luz. No fim de 2017, o índice de desemprego era de 11,4%. Entre os jovens, a taxa era maior: 23%. A repressão policial, outro problema, dificilmente aparece nas estatísticas. Foi esse caldo que alimentou os protestos violentos de 2005. Cidadãos franceses descendentes de africanos e árabes, junto com jovens brancos, incendiaram carros e enfrentaram a polícia por mais de duas semanas. Os tumultos começaram no subúrbio de Paris, quando dois jovens morreram aparentemente ao fugir da polícia. Logo, eles se transformaram em uma manifestação contra o racismo, a repressão policial e as escassas oportunidades de emprego para os imigrantes. Cidade partida. Paris dividida.