ECOMODA: Escola de moda sustentável promove educação ambiental no Rio

Atrás apenas de Estados Unidos e China, Brasil é o terceiro maior produtor de lixo no planeta

 

Um estudo realizado pelo Cempre (Compromisso Empresarial para Reciclagem) mostra que 85% dos brasileiros não têm acesso à coleta seletiva no país. Em números, significa que quase 170 milhões de pessoas deixam de contribuir para a conservação do meio ambiente. São toneladas de resíduos jogados nos diversos lixões em todo o território nacional. Buscando contribuir para frear os impactos do descarte de lixo inadequadamente, o Ecomoda é uma escola de moda que promove, desde 2006, a educação ambiental por meio do reuso de materiais em diversas localidades do estado, transformando resíduos em moda. Uma proposta que faz um banner promocional, que seria descartado para o lixo, se transformar em uma bolsa. A escola recebe doações de insumos de instituições do governo e de organizações civis, como a cooperativa de reciclagem da Rocinha. O projeto busca despertar a consciência dos alunos para esta questão, promover a formação profissional com oficinas e cursos e trazer o tema ao debate público.

“O Ecomoda é sustentado por três eixos, sendo educação ambiental, inclusão social e trabalho e renda, porque cidadania é trabalho. Sem esses pilares, a escola não tem como funcionar”, explica Almir França, criador e coordenador do projeto.  “A compreensão do Ecomoda é fazer moda com esse lixo, mas não o lixo que vai para a lixeira, e sim o que serve para o luxo, que realmente é matéria-prima do novo negócio”, diz. Em comparação com outros países, o Brasil é o terceiro maior produtor de lixo no planeta, ficando atrás, apenas, dos Estados Unidos e China. Segundo o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), a economia brasileira perde R$8 bilhões por ano.

Na contramão dos altos índices de produção de lixo na capital e no estado, o projeto Ecomoda suscita educação ambiental por meio da reciclagem de roupas e acessórios, que antes iriam para a lixeira. A escola já formou mais de quatro mil pessoas e atua em algumas comunidades cariocas, como Complexo da Maré e Rocinha e, também, fora da capital, como Niterói e outras cidades do estado. As turmas são compostas por pessoas de diferentes faixas etárias. Na Rocinha, 130 mulheres são atendidas pelo projeto. Os 10 primeiros participantes de cada curso ganham uma ajuda de custo. No Rio, a quantidade de rejeitos destinados à reciclagem triplicou. Isso se deve às Olimpíadas, que forçaram as esferas de governo a elaborar uma política pública voltada para esta temática, ainda que emergencial e passageira.  

O estilista

Almir França, 58, é nascido e criado na Baixa do Sapateiro, no Complexo da Maré. Além de educador, é formado em Belas Artes pela UFRJ. Figurinista e apaixonado por moda, França começou sua carreira muito novo. Ele conta que aos 11 anos já estava debruçado sobre uma máquina de costura da tia. Para ele, a prática contribuía para a renda da família. “Com quatorze anos fui trabalhar numa empresa de tecidos, no departamento de desenhos e, ali, me apaixonei. Mas eu nunca tinha visto isso [a costura] como profissão, porque a gente era muito marginalizado; era um ofício muito feminino na época. Tive que criar irmãos e vi na máquina de costura a solução para isso”, conta.

Além de comandar a escola, Almir França é uma reconhecida liderança no movimento LGBT do estado, membro da diretoria do Grupo Arco-Íris e ajudou a implementar políticas públicas para a população LGBT, por meio do Programa Estadual Rio Sem Homofobia. Pensando em diminuir a ausência de oportunidades para a população trans (de quem sempre foi parceiro), Almir França criou a Escola de Divinas, inspirada na escola de mesmo nome, de Heitor Werneck, uma escola de moda direcionada para travestis e transexuais, em parceria com o Arco-Íris. “A ideia é que, em um mês, a gente já tenha uma bordadeira. É um modelo novo que nós vamos começar: o ensinar e o empreender, porque a gente entende que elas têm pressa”, afirma.

O estilista observa que o projeto Ecomoda colabora para a redução tóxica no meio ambiente. “É lógico que é um processo a longo prazo, da reeducação, da ressignificação do olhar sobre as coisas, principalmente, sobre o que é resíduo. Mas, a curto prazo, eu estou falando de toneladas de lixos que estariam nos rios, nos mares, porém podem ser altamente produtivos e de recursos para a população. Para os integrantes do projeto, isso significa pensar em novos negócios”, completa Almir.

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